sexta-feira,

27/02/2026

Joinville/SC

Laudo aponta que “Orelha” pode ter morrido após pancada na cabeça, mesmo sem fratura

 

Orelha foi enterrado direto na terra, sem saco nem caixa, nos fundos de uma casa em Florianópolis. O detalhe aparece no laudo pericial nº 2026.02.01212.26.007-94, da Polícia Científica de Santa Catarina, produzido após a exumação feita em 11 de fevereiro. O Jornal Razão obteve acesso à íntegra.

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O documento, assinado digitalmente pelos peritos oficiais criminais Igor de Salles Perecin, relator, e Paulo Eduardo Miamoto Dias, revisor, foi requisitado pela Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei da Capital. A perícia foi solicitada pelo Ministério Público para tentar esclarecer as circunstâncias da morte do cão comunitário, caso que ganhou repercussão nacional e é investigado a partir de suspeita de agressão ocorrida na região da Praia Brava, em Florianópolis, no dia 4 de janeiro.

No histórico do laudo, a Polícia Científica registra que, conforme o boletim de ocorrência citado no próprio documento, um morador que cuidava do animal foi chamado por volta das 14h para verificar o cachorro, encontrado “todo machucado na cabeça, imóvel e debilitado”. O texto também relata que o cão teria sido “levado a um veterinário e submetido à eutanásia” por não apresentar chance de recuperação, ainda segundo o boletim inicial reproduzido no laudo.

A perícia também citou “ambiente de desinformação” que marcou o início do caso. O documento diz que “diversas informações de fontes inidôneas foram propagadas” em meios midiáticos, incluindo “versões de que o animal teria sido empalado, que um prego teria sido cravado no crânio e que ele teria sido espancado até a morte”.

A exumação, segundo o laudo, ocorreu em um imóvel na Rua Maurício Silvio Raulino, em Ponta das Canas. O local onde o cão estava enterrado foi apontado pela pessoa que realizou o sepultamento. A equipe descreve que o ponto exato ficava ao lado de um muro de pedras, próximo a uma pequena árvore.

Na etapa de escavação, os peritos registraram um dado que chama atenção pela simplicidade e pelas consequências técnicas. Orelha foi enterrado “diretamente no solo, sem embalagens ao redor do corpo”. Isso significa que não havia saco, caixa, pano, lona ou qualquer material envolvendo o corpo. O animal ficou em contato direto com a terra.

Ainda na cova, a Polícia Científica descreve como encontrou o animal: “em decúbito lateral direito, com a face voltada para cima”. O laudo relata que alguns ossos já estavam desprendidos, especialmente pequenos ossos das extremidades dos membros. Para preservar o material e evitar danos, os peritos optaram por retirar o corpo “em bloco, com margem de segurança trazendo solo junto”, para processamento posterior em laboratório.

Quando o material chegou para análise, o estado do corpo impôs limitações claras. O laudo aponta que o cão estava em “avançado estado de putrefação, em esqueletização, sem tecidos moles ainda identificáveis (exceto parte da pele)”. Na prática, isso inviabilizou exames internos que costumam ser decisivos em mortes com suspeita de violência.

A Polícia Científica explica que a indisponibilidade de exames histopatológicos e laboratoriais variados, somada à falta de histórico confiável e às circunstâncias anteriores ao óbito, reduz a capacidade de determinar a causa da morte. No caso específico de Orelha, a esqueletização restringiu o trabalho à “minuciosa avaliação óssea dos remanescentes mortais”.

Em laboratório, os ossos foram limpos e submetidos à maceração térmica para remoção completa de tecidos moles residuais, depois secados para análise. A finalidade principal, conforme o laudo, foi buscar lesões ósseas que pudessem ter sido causadas por ação humana.

O resultado objetivo desse exame é um dos pontos centrais do documento. A Polícia Científica afirma que todos os ossos foram examinados e que “não se verificaram fraturas” nem lesões ósseas compatíveis com agressão humana, incluindo o crânio. A perícia também registra que não foi constatado vestígio que sustente a hipótese de prego cravado na cabeça.

Ao mesmo tempo, o laudo traz um alerta técnico. Na discussão, os peritos escrevem que “a ausência de fraturas no esqueleto do animal não deve ser interpretada como ausência de trauma cranioencefálico”. O texto aponta que a literatura especializada afirma que a maioria dos traumas cranianos não apresenta fraturas, mas pode levar à morte.

Segundo o laudo, “é plenamente plausível que o animal tenha sofrido um trauma contundente em cabeça em um dia e piorado clinicamente de forma progressiva até o outro”. O documento explica que os efeitos do trauma podem ser primários ou secundários e que a evolução depende de fatores como resposta individual, tipo de instrumento, velocidade do golpe e idade do animal.

Além da investigação sobre trauma, a perícia descreve achados considerados crônicos. No crânio, em região maxilar esquerda, foi observada porosidade óssea compatível com osteomielite, com características de processo antigo. O laudo afirma que não há relação desse achado com eventual trauma recente.

Na coluna vertebral, o documento descreve a presença de osteófitos compatíveis com espondilose deformante, doença degenerativa comum em animais idosos. Em tíbias e fêmures, foram observadas alterações típicas de doença articular degenerativa, também apontadas como enfermidades crônicas sem relação com possível agressão recente.

A conclusão do laudo permanece limitada pelo estado do corpo. O documento afirma que houve a morte do animal, mas que “a análise dos remanescentes mortais não permitiu afirmar qual a causa da morte”. Reforça ainda que “a ausência de fraturas não implica ausência de ação contundente contra a cabeça do animal”.

O conteúdo técnico do documento entrou no centro de uma disputa de narrativa nas redes sociais, especialmente após a divulgação do laudo como “exclusivo” por veículos ligados à TV Globo. Parte do público reagiu com revolta ao entender que manchetes destacaram o descarte de fraturas sem dar o mesmo peso ao trecho em que a Polícia Científica afirma que trauma cranioencefálico pode ocorrer sem fratura e que a hipótese de trauma contundente é “plenamente plausível”.

O laudo informa ainda que os remanescentes mortais do animal ficarão armazenados na Polícia Científica “como forma de referências futuras” e permanecem à disposição das autoridades responsáveis pelo caso. A própria Polícia Científica sugere que o documento seja lido na íntegra, especialmente o item de discussão, que debate o alcance e os limites da conclusão pericial.

Fonte Original | Segurança – Jornal Razão

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