quinta-feira,

05/03/2026

Joinville/SC

Joinville, 175: O derrame de dinheiro falso nos anos 1930

 

Por Patrik Roger Pinheiro, historiador e coordenador do Memória CVJ.
***

Na década de 1930, os jornais diziam que Joinville possuía uma sucursal da “Casa da Moeda”. Infelizmente, não se tratava de uma filial de uma das instituições mais antigas do Brasil, mas sim de uma referência bem-humorada à fábrica de moedas falsas que operava na cidade.

Acompanhe os dias em que o dinheiro “brotava” em oficinas mecânicas, e a polícia de Joinville precisou provar que estava do lado certo da lei.

Derrame de moedas falsas

Na década de 1930, alguns catarinenses descobriram uma “vocação” perigosa: fabricar moedas falsas. Os falsários atuavam em diferentes municípios e, de quando em quando, um desses locais era desmantelado pela polícia. Em Joinville, moedas falsas foram introduzidas em profusão no mercado.

Refletindo a indignação dos munícipes, o jornal A Notícia estampou matérias com títulos alarmantes: “Moedas Falsas! O despejo de centenários em nossa cidade” (04/07/1934), “Ainda em ação a sucursal da Casa da Moeda?” (21/07/1934) e “Inaudito! Moedas falsas rolam a granel em Joinville” (02/09/1934).

O comércio precisou se defender. Como os falsários cunhavam muitas moedas de dois mil réis, correu o boato de que as lojas começaram a rejeitar moedas desse valor, fossem falsas ou verdadeiras. A Associação Comercial e Industrial de Joinville (ACIJ) investigou o caso e tranquilizou os clientes: apenas as peças falsificadas eram recusadas.

Vai Mimoso, resolve essa!

A imprensa estranhava a aparente apatia do aparato policial. Como um derrame tão grande de dinheiro falso ocorria sem que ninguém fosse preso? O delegado da época era Mimoso Ruiz, homem que se dava bem tanto com a pena quanto com o aço da arma: era jornalista, poeta e homem da lei.

Pressionado, Mimoso publicou uma nota afirmando que a polícia não estava de braços cruzados, mas que precisava de evidências para agir dentro dos limites legais. Meses depois, em abril de 1935, os jornais ainda o incentivavam: “Continue, Sr. Mimoso Ruiz, a sua ação saneadora. Continue impavidamente, sem sustos e sem temores”. Suspeitava-se que intrigas locais tivessem desanimado o delegado.

Mimoso Ruiz/Memória CVJ

A “Filial da Casa da Moeda”

Carlos Soeder… este era o homem-chave no esquema do dinheiro falso. Mecânico de automóveis, Soeder parecia disposto a “consertar as finanças” de seus clientes de forma ilícita. Embora Mimoso tenha iniciado os trabalhos, foi o delegado Pedra Pires quem o pegou em flagrante, em 1936, na rua Santa Catarina.

Na oficina, foram encontradas a prensa e a matéria-prima para a cunhagem. Soeder alegou inocência, afirmando que o maquinário servia para fabricar aparelhos de barbear, arruelas e anéis para pincéis — qualquer coisa, menos moedas. O argumento não convenceu: Soeder, que já era reincidente, foi para o xadrez.

Os outros implicados estavam torcendo para mecânico não os entregar, mas daí entrou em cena a senhora Soeder. “Se dentro de três dias meu marido não for solto, denunciarei todos os cúmplices”. A casa estava caindo. O caso ganhou ramificações estaduais, e o Secretário de Segurança Pública passou a dirigir os inquéritos pessoalmente.

De heróis a vilões – que confusão

O caso deveria ter terminado aí. Falsários enquadrados, polícia com o dever cumprido… mas não! Uma gafe jornalística gerou nova confusão. Ao noticiarem o escândalo, jornais de fora do estado deram o crédito da investigação à polícia do Paraná, que segundo Joinville, não ajudaram em nada. Depois, como na foto do flagrante policial saiu o delegado no canto esquerdo, sem o paletó, e um jornal mineiro entendeu que isso indicava que ele não estava entre os mocinhos, mas entre os bandidos. Pedra Pires se tornara cúmplice na fake news da época. E, para piorar, Mimoso Ruiz foi acusado de ter adquirido quinhentos mil réis em moedas falsas da quadrilha.

Tudo não passava de mal-entendidos que deram muito trabalho para serem explicados, mas a inocência dos agentes de polícia foi esclarecida. Soeder e seus comparsas acabaram punidos, escrevendo um capítulo curioso na crônica policial da cidade. Hoje, o dinheiro virtual é o novo alvo dos falsários, e a luta contra os “Soeders” modernos e seus golpes eletrônicos continua na rede mundial.

Foto do Flagrante policial. O delegado Pedra Pires está com roupas claras à esquerda. Soeder está no centro, também com roupas claras. (foto: A Notícia, 28/03/1936

Gostou deste relato? O Memória CVJ contará mais duas histórias curiosas ocorridas em nossa cidade. Fique atento ao nosso site!

Fonte Original | Notícias – Câmara de Vereadores de Joinville

Você não pode copiar o conteúdo desta página