Lênio Leonides da Cunha já cumpriu pena por matar um homem a tiros em um bar, foi preso em dezembro de 2025 por invadir a casa da ex com uma faca e voltou a ser preso em agosto por ameaça, apurou com exclusividade o Jornal Razão
O motorista preso depois da colisão que matou duas irmãs gêmeas de 15 anos na noite desta terça-feira (15), na Rodovia Luiz Rosso, no bairro Quarta Linha, em Criciúma, é Lênio Leonides da Cunha. O Jornal Razão apurou com exclusividade a identidade dele e o histórico criminal que acumula há pelo menos duas décadas: são 33 passagens pela polícia, uma condenação definitiva por homicídio e duas prisões preventivas nos últimos nove meses.
Lênio dirigia um Toyota Corolla XEi preto, que atingiu o Fiat Uno Mille onde estavam as adolescentes, em frente a uma borracharia da Quarta Linha. Segundo a Polícia Militar, o estado de embriaguez dele era visível. No momento da batida, o Corolla estaria em alta velocidade.
As primeiras informações que chegaram à polícia já apontavam que o causador do acidente estava bêbado e tentava deixar o local. Quando a PMSC chegou, Lênio estava sendo contido por pessoas que estavam na rodovia. Segundo relatos, ele teria tentado fugir depois da colisão. Minutos antes, o mesmo Corolla teria batido contra um muro e seguido pela rodovia.
Dentro do Uno Mille, as duas irmãs ficaram presas às ferragens. Uma delas morreu no local, enquanto os bombeiros tentavam retirá-la do carro. A outra foi socorrida com vida, mas morreu a caminho do hospital. O carro levava ainda outros dois homens, entre eles o motorista, que também foram levados para atendimento médico. Um vídeo mostra o momento da colisão.
Lênio teve ferimentos leves e ficou em observação na UPA da Próspera, sob escolta da Polícia Militar. Depois da alta, deve ser levado à delegacia. O caso foi registrado como homicídio culposo e lesão corporal culposa no trânsito, e a situação dele será analisada pela Justiça em audiência de custódia.
Tiros dentro de um bar
O registro mais grave da ficha de Lênio é de 2006. Segundo a investigação, levantada pelo Jornal Razão, ele entrou no Bar do Rocha e disparou com um revólver de cano curto contra Sírio Pube Matick, de 41 anos, que morreu no local. Lênio, que tinha 40 anos na época, fugiu em seguida com um sobrinho, em um Corsa vermelho de quatro portas. O dono do bar presenciou o crime, e a Polícia Civil confirmou naquela mesma noite quem era o autor dos disparos.
Não era a primeira vez que ele aparecia armado. Um ano antes, em 2005, Lênio foi abordado pela Polícia Militar com um revólver calibre 32, da marca Rossi, depois de disparar pelo menos três vezes nas imediações da boate Casa Amarela. O caso foi registrado como porte ilegal de arma.
Dez anos até o júri
O processo pelo homicídio se arrastou por uma década. Só em 16 de novembro de 2016 o Tribunal do Júri de Criciúma condenou Lênio por homicídio simples, a 6 anos de reclusão em regime semiaberto. Na sentença, o juiz negou a troca da prisão por pena alternativa, mas permitiu que ele recorresse em liberdade, porque tinha respondido a todo o processo solto e sem registro de incidentes.
A prisão só veio quase quatro anos depois. Em setembro de 2020, com a condenação definitiva, o Tribunal de Justiça expediu o mandado, cumprido em outubro. Lênio foi levado ao Presídio Regional de Criciúma para cumprir a pena.
Pedido para cumprir pena em casa
Menos de um mês depois de preso, Lênio pediu à Vara de Execuções Penais de Criciúma para cumprir a pena em casa. A defesa alegou doença cardíaca grave. Conforme documentos obtidos pelo Jornal Razão, ele já tinha passado por uma cirurgia de revascularização do miocárdio e por uma angioplastia depois de um infarto, e usava sete remédios de uso contínuo.
A Justiça mandou fazer uma perícia médica. O perito concluiu que, com acesso garantido aos remédios e ao acompanhamento especializado, não havia impedimento para que ele continuasse preso. Com base no laudo, a juíza Débora Driwin Rieger Zanini negou o pedido em 12 de novembro de 2020 e mandou o presídio fornecer a medicação e o tratamento.
A defesa recorreu ao Tribunal de Justiça com um habeas corpus. No pedido, os advogados citaram o risco da Covid-19 nas prisões, disseram que Lênio aceitava usar tornozeleira eletrônica e o descreveram como “marido e pai exemplar”, com “ótima reputação familiar e social”. Também afirmaram que o homicídio tinha sido “um caso único e isolado” na vida dele.
Em 17 de dezembro de 2020, a 4ª Câmara Criminal do TJSC rejeitou o pedido por unanimidade. O relator, desembargador Sidney Eloy Dalabrida, destacou que a doença podia ser tratada dentro da prisão e que o crime tinha sido cometido com violência contra a pessoa.
Solto, livre da pena e preso de novo
Lênio deixou a prisão em março de 2021, com medidas cautelares. Em dezembro daquele ano, progrediu para o regime aberto. Em abril de 2024, a Justiça declarou extinta a pena pelo homicídio.
Um ano e oito meses depois, ele voltou a ser preso. Em dezembro de 2025, segundo a polícia, Lênio foi até a casa de uma ex-companheira no início da manhã, gritando em frente ao imóvel, sem aceitar o fim do relacionamento. Ainda de acordo com a polícia, ele ameaçou a mulher com uma faca, invadiu o pátio e chutou a porta da casa. Familiares que estavam no imóvel conseguiram tirar a faca das mãos dele e chamar a PMSC.
Lênio estava sob efeito de álcool e tinha ido de carro até a casa da ex. O veículo foi recolhido e notificado. Com ele, a polícia apreendeu a faca e R$ 6.600 em dinheiro vivo. O caso foi registrado como ameaça e violação de domicílio, e a Justiça de Araranguá converteu o flagrante em prisão preventiva em 14 de dezembro.
A prisão durou pouco mais de dois meses. No fim de fevereiro de 2026, a Justiça revogou a preventiva, e Lênio saiu no início de março, obrigado a cumprir medidas cautelares.
Nova prisão em agosto
Em 2 de agosto deste ano, pouco mais de um mês antes da tragédia na Quarta Linha, Lênio foi preso mais uma vez, agora por ameaça. No dia seguinte, o Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Criciúma converteu o flagrante em prisão preventiva. Não há registro público de quando ele voltou às ruas.
CNH na mira do Detran
A situação dele no trânsito também já estava sob análise do Estado. O Jornal Razão localizou no Diário Oficial de Santa Catarina de 10 de abril deste ano um edital da Ciretran de Criciúma notificando Lênio da abertura de um processo de suspensão do direito de dirigir, por ter estourado o limite de pontos na carteira.
Como o órgão não conseguiu encontrá-lo, declarou que ele estava em “lugar incerto e não sabido” e fez a intimação por edital. O prazo para apresentar defesa, de 50 dias, terminou no fim de maio. O resultado do processo não foi divulgado, e não se sabe se Lênio tinha habilitação válida na noite desta terça-feira.














