Durante a New York Fashion Week, a tecnologia deixou de aparecer apenas como “efeito especial” de desfile e passou a funcionar como linguagem de criação.
O que antes era restrito a protótipos de ateliê ou pesquisas acadêmicas agora surge na forma de roupa que reage ao toque, à luz, ao movimento, ao ambiente e até ao comportamento de quem veste.
Essa mudança não é apenas estética: ela reposiciona a moda como um setor que disputa inovação com a indústria de sensores, softwares e materiais avançados.
O recado é simples: em 2026, não basta desenhar uma silhueta interessante.
A moda também quer “funcionar” e, para isso, recorre a inteligência artificial, têxteis inteligentes e componentes eletrônicos integrados. A promessa é uma roupa que não só comunica identidade, mas também se adapta, coleta sinais e responde, aproximando o vestir de uma experiência interativa.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse comercial por tudo o que cruza moda e tecnologia.
Relatórios de mercado apontam expansão acelerada do segmento de wearables e tecnologias vestíveis na segunda metade da década, puxada por saúde, bem-estar,
conveniência e, cada vez mais, por design e cultura.
IA como coautora: do insight ao molde digital
A inteligência artificial já atua em várias etapas da cadeia criativa, mesmo quando o resultado final ainda parece “clássico” para o olhar do público.
Em um lado, algoritmos analisam sinais de demanda: pesquisas, cliques, intenção de compra, clima, variações
regionais e comportamento social para prever categorias e volumes com menos risco.
Em outro, ferramentas generativas aceleram estudos de cor, modelagem, estamparia e até simulações de caimento, reduzindo ciclos e prototipagem física.
Esse movimento altera a dinâmica do estúdio. Em vez de começar só do moodboard, o criador passa a começar também de dados.
Não significa substituir sensibilidade humana, mas deslocar o ponto de partida: a IA sugere caminhos e hipóteses, e o designer seleciona, edita e dá intenção.
A discussão que aparece com força é autoria: quando um software participa do processo, a assinatura muda de lugar, e o valor cultural do “feito por alguém”
ganha novas camadas de debate.
Tecnologia vestível: luz, sensores e movimento saem do conceito
O salto mais visível está na roupa que se comporta como dispositivo.
Um exemplo recente que chamou atenção em NYFW 2026 foi o de uma criadora com formação em robótica que apresentou peças capazes de reagir a estímulos humanos: um vestido que “floresce” quando há um aperto de mão, usando sensores e atuadores, e outro que acende com a movimentação do corpo, combinando fibras ópticas e sensores de alongamento.
A história por trás do protótipo ilustra o ponto central: moda vestível depende de laboratório, engenharia e tempo de desenvolvimento, além de uma cadeia de testes que lembra mais um produto tecnológico do que um item tradicional de vestuário.
O que está em jogo não é só espetáculo. Smart textiles e e-textiles já são estudados para aplicações que vão de conforto térmico a monitoramento, desde que a tecnologia seja robusta, lavável e segura.
A indústria ainda enfrenta barreiras claras: flexibilidade de materiais, durabilidade, padronização, custo, manutenção e a pergunta mais sensível de todas, a aceitação do consumidor.
Para além do fascínio, existe uma fase inevitável de validação: pequenas peças e cápsulas experimentais servem para testar toque, resistência e ergonomia antes de qualquer ambição de escala.
Do clássico ao futuro: roupa como interface cultural
A moda sempre traduziu o espírito do tempo.
A diferença é que, agora, o “espírito” inclui conectividade, rastros digitais e expectativas de personalização em tempo real.
Nesse contexto, mesmo itens tradicionais como a saia jeans continuam relevantes por sua permanência cultural, mas passam a conviver com um novo imaginário: o de roupas responsivas, que mudam com o corpo e com o ambiente, e que podem carregar funções antes impensáveis para o guarda-roupa comum.
É aqui que a tecnologia deixa de ser “gadget” e vira narrativa.
Uma peça iluminada não é só luz, é uma ideia sobre presença. Uma roupa que reage ao toque não é só mecânica, é um comentário sobre relações.
Quando o vestuário se torna interface, a moda volta a ocupar um lugar de vanguarda cultural, desta vez com componentes, códigos e sensores.
Novas profissões: o designer-programador e a estética dos dados
A convergência entre moda e tecnologia cria um mercado híbrido que muda perfis decarreira.
Entram em cena profissionais que transitam entre modelagem e prototipagem eletrônica, entre estética e interação, entre engenharia de materiais e direção criativa.
A própria cobertura especializada já trata wearables como um território em que tecnologia precisa de linguagem de moda para ganhar adoção, confiança e desejo, enquanto a moda precisa de tecnologia para entregar novas experiências.
Esse cenário também pressiona escolas, eventos e cadeias produtivas: se o produto é parcialmente digital, a etapa de criação inclui simulação, testes, UX e até princípios de segurança e privacidade.
No horizonte, cresce uma pergunta regulatória e ética: quem controla os dados gerados por roupas conectadas e como o setor vai lidar com transparência, consentimento e riscos de vigilância.
O que vem pela frente: menos “wow”, mais utilidade
A próxima fase da moda vestível tende a ser menos sobre efeito e mais sobre utilidade
elegante.
Para sair da passarela e entrar na rua, os desafios são objetivos: materiais mais confortáveis, eletrônica mais discreta, baterias ou fontes de energia menos intrusivas, processos laváveis e reparáveis, além de custo compatível com o varejo.
Se a década passada provou que tecnologia pode ser bonita, a segunda metade dos anos 2020 parece querer provar outra coisa: que a moda pode ser inteligente sem ser invasiva, e funcional sem perder poesia.











