Turismo de Neve: Brasil supera a França no Club Med e dita ritmo no mercado global de luxo

Impulsionado pelo agronegócio e por uma nova camada de alta renda fora do eixo Rio-São Paulo, mercado brasileiro consolida três faixas de consumo nas estações de esqui internacionais.

SÃO PAULO — O mercado brasileiro de turismo de neve vive uma consolidação sem precedentes. As projeções para a temporada 2026/2027 apontam para um crescimento sustentado por motores próprios: uma nova camada de consumidores de alta renda, oriunda de regiões fora dos tradicionais centros financeiros, que colocou os destinos de inverno no planejamento anual de consumo. O reflexo disso já é visível nas principais estações dos Alpes europeus, onde a infraestrutura hoteleira tem se adaptado para atender em português.

Pela primeira vez na história da rede Club Med, o Brasil ultrapassou a França nas vendas globais de pacotes de neve em 2025. O aquecimento do setor ficou evidente na campanha de early booking realizada em março, que faturou R$ 360 milhões — uma alta superior a 50% em comparação com o mesmo período de 2024, superando a marca de 20 mil reservas. No total do ano, a rede enviou cerca de 32 mil brasileiros para destinos de esqui, consolidando um movimento que operadoras de turismo já acompanhavam de perto nas últimas três temporadas.

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A radiografia do consumo em três níveis

Os dados setoriais apontam que a demanda brasileira se estruturou em três camadas distintas de público e poder aquisitivo:

  • A base (Porta de entrada nos Andes): O Chile desponta como o principal destino, tendo recebido 787 mil brasileiros em 2024. Já a cidade argentina de Bariloche registrou 54,9 mil visitantes do Brasil entre junho e setembro de 2025, com projeção de alcançar 65 mil turistas na próxima temporada de inverno.

 

  • O meio (Ticket alto nos Alpes): Além da liderança do Club Med em receita global de neve, a estação de Courchevel, na França, registrou cerca de 82 mil estadias de brasileiros na temporada 24/25. O índice coloca o Brasil entre os quatro principais mercados emissores do destino, ao lado de Reino Unido, Estados Unidos e Emirados Árabes. Na mesma linha, a Suíça fechou o balanço anterior com mais de 330 mil pernoites de brasileiros, um crescimento de 21% sobre 2023 e de 40% em relação a 2019.

 

  • O topo (Destinos de grife): Aspen, nos Estados Unidos, já posiciona o Brasil em seu Top 3 de mercados internacionais, com os turistas do país disputando espaço de igual para igual com mercados historicamente consolidados.

 

Para analistas do setor, o desempenho simultâneo desses três níveis afasta a hipótese de um pico isolado ou febre passageira, caracterizando a consolidação de uma nova categoria de consumo de viagens.

Crescimento econômico e descentralização da renda

O avanço do turismo de neve reflete a resiliência do mercado de luxo nacional. Um relatório da consultoria Bain & Company avaliou o setor de alto padrão no Brasil em R$ 98 bilhões, com um crescimento acumulado de 26% entre 2022 e 2024 — contra apenas 3% da média global. O segmento de Hotéis e Experiências avançou 16% no mesmo período.

O apetite do viajante brasileiro também é respaldado por dados financeiros de meios de pagamento. A Visa Consulting & Analytics registrou uma alta de 20% nas transações de cartões da categoria Visa Infinite em destinos de esqui na comparação anual. Os maiores crescimentos ocorreram nos Alpes Suíços (23%), Ushuaia (22%), Valle Nevado (20%) e Bariloche (12%).

A capilarização geográfica é outra tendência identificada. Na última edição da ExpoSKI, feira que reuniu 85 complexos de montanha de oito países, 40% das agências de viagens participantes eram de fora do estado de São Paulo. De forma geral, o volume de brasileiros nas estações francesas saltou 140% entre 2019 e 2025. Como resposta operacional a esse fluxo, o Club Med anunciou que ampliará o número de funcionários brasileiros em seus hotéis nos Alpes, saltando de aproximadamente 10 para 75 colaboradores até o final de 2026.

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